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A banalização da vida: reflexões sobre o desastre da Boate Kiss

No dia 27 de janeiro de 2013, o desastre da Boate Kiss desocultou como vidas são ceifadas em prol da ganância, das relações de poder e do lucro.

Por Nadiana Marques27/01/2021 09h00

SANTA MARIA Quando ocorre um desastre, todos (as) somos impactados, revelando e expondo situações de fragilidade, pois, além de gerar destruição, perdas materiais e subjetivas, sua proporção impacta nas famílias, comunidades e até mesmo nos sistemas de referência de que a vida depende. No dia 27 de janeiro de 2013, o desastre da Boate Kiss desocultou como vidas são ceifadas em prol da ganância, das relações de poder e do lucro. Infelizmente, mais um desastre que se soma a tantos outros que ocorreram (a exemplo de Mariana e Brumadinho), todos com o mesmo final: SILENCIADOS! Parece que o fim trágico desses desastres não cessa com a perda de vidas (desvalorizada e tornada algo muito fugaz e de pouco valor), destruição de famílias, comunidades e seus laços, o que os conecta é o ocultamento de respostas, é o Estado como nação negligenciar o seu compromisso diante de tamanha destruição.

"É necessário enfatizar que os desastres não podem ser considerados casos “isolados”, ou mera “fatalidade”, devem ser reconhecidos como acontecimentos sociais, nutridos por estruturas e dinâmicas complexas."

O acontecimento de um desastre está articulado a forma de constituição da sociedade, e a sua ocorrência está intimamente ligada ao modo de produção capitalista, no qual os novos processos produtivos acarretam transformações profundas nas vidas dos sujeitos, evidenciando os desastres como uma expressão da questão social.


É necessário enfatizar que os desastres não podem ser considerados casos “isolados”, ou mera “fatalidade”, devem ser reconhecidos como acontecimentos sociais, nutridos por estruturas e dinâmicas complexas em que a compreensão consistente em uma análise de conjuntura e de contexto na qual estão presentes as reproduções contraditórias das relações de classes, a negação ou violação de direitos humanos, a desvalorização da vida e a omissão por parte do Estado no que refere-se a proteção da população, resultante das condições estruturais e materiais de uma sociedade capitalista.


Diante de complexas condições, os direitos humanos são negados à população afetada e a luta pelo reconhecimento desses direitos, passa a ser travado pela judicialização e amparado por órgãos internacionais como um caminho ou alternativa contra a barbárie cometida pelo Estado.


O desastre ocorrido na Boate Kiss, que vitimou 242 pessoas, ao completar oito longos anos, revela um cenário caótico de desamparo, incertezas, desproteção e como uma sociedade regida pelas leis econômicas, norteadas pelo lucro, trata seus cidadãos e populações afetadas diretamente por um desastre.

Nadianna Marques é Assistente Social, Professora no Colégio Politécnico da UFSM e Doutoranda do Programa de Pós- Graduação em Serviço Social da PUCRS